Costa Discórdia

18 01 2012

O passar dos dias não torna mais natural a visão de um navio como o Costa Concórdia aleijado e tombado na linda costa de Giglio. A essa altura o Capitão Schettino já foi crucificado na corte da opinião pública internacional, para a felicidade da Costa e da Carnival Cruise Corporation (que é a dona da Costa), ambas depositando toda a responsabilidade do acidente sobre o Capitão.

Pelo que foi divulgado até agora ele parece, sim, culpado não só pelo acidente, mas como também pela desorganização no abandono do navio. Porém é preciso segurar as massas antes do linchamento, porque por outro lado a manobra realizada após o acidente, trazendo o navio o mais próximo possível da costa possibilitou que o número de vitimas fosse infinitamente menor do que se ele tivesse afundado em águas mais profundas e porque é preciso aguardar as investigações para tirar conclusões.

O que não tira a responsabilidade do Capitão pela manobra inicial e, apesar da explicação de por quê ele saiu do navio (foi jogado para fora) ser possível, a demora e a recusa dele de voltar para bordo o incriminam de qualquer maneira, catapultado para fora ou não. A demora em pedir socorro para as autoridades italianas também conta contra o caso do Capitão.

Mas o que a Costa não quer ninguém falando é na responsabilidade da empresa no assunto. No campo da aviação, por exemplo, uma profusão de controles e comandos permite que diversas instâncias controlem e fiscalizem o desenvolvimento de um vôo, indo da tripulação, à companhia, controle de vôo e órgãos de fiscalização. Um comandante de vôo que resolva fazer um vôo a baixa altura por Copacabana para que a mãe dele possa dar tchau pode contar com uma tempestade de problemas quando ele pousar. Já um comandante de navio não.

Como a imprensa e a seguradora Lloyd’s têm mostrado nos últimos dias – e a seguradora tem motivos financeiros fortes para isso – não foi a primeira vez que o Costa Concordia desviou 9 quilômetros da rota para fazer uma passagem próxima de Giglio. Pelo menos uma outra ocasião em 2011 já foi comprovada, quando o Concordia passou ainda mais perto de Giglio do que dessa vez. Dada a repetição da manobra no último fim de semana é de se esperar que o Capitão não tenha sido advertido anteriormente.

A empresa tem como saber que seu navio desviou grosseiramente da rota e, pelo visto, os italianos preferiram não tomar nenhuma medida, certamente na idéia de que o Capitão é o Capitão e sabe o que esta fazendo com “seu” navio. Mas o navio é da Costa e o Capitão um funcionário que, novamente à principio, tinha o costume de desrespeitar as normas e planos. Não foi o primeiro acidente com fatalidades da Costa nos últimos cinco anos e, certamente, isso aumenta a suspeita sobre as políticas da companhia. É importante ressaltar que, obviamente, o Capitão tem a liberdade de mudar a rota por condições climáticas, do mar ou por motivos significativos. O que é diferente de fazer um desvio de 9 quilômetros e passar a menos de 250 metros de uma costa com pedras por motivos espúrios.

Como nós brasileiros temos muito em comum com os italianos é fácil entender essa cultura. Seguir estritamente as normas e regras quando se tem o poder total e autoridade sobre um navio daquele tamanho é chato e qual o problema de desviar “um pouco” da rota para fazer “um bonito” com seu maitrê e, segundo consta, um Capitão aposentado que também estava a bordo? A mesma manobra já havia sido feita sem problemas, afinal de contas. O Capitão, como mestre da embarcação, é sem duvida o responsável pelo que acontecer com o navio, mas acredito que a cultura da companhia e, portanto, a companhia em si pode ser tão culpada como o Capitão, no mínimo por negligência. É nesses momentos que aparecem os custos de não seguir as normas e desrespeitar os procedimentos de segurança na condução das operações.





Ano novo, emprego novo!

5 01 2012

Meus queridos leitores, um ótimo ano novo para todos!

A primeira coluna desse ano vem com três notas curtas sobre o Brasil. Lembrando aos que perguntaram que no site tem uma função “subscribe” para ser informado diretamente quando algo é publicado.

* * * *

Por que não começar o ano de emprego novo? E nada como um bom emprego público, com estabilidade, aposentadoria especial e por aí vai… Entre os concursos públicos divulgados para esse começo de 2012 estão:

Analista Judiciário do Tribunal de Justiça do RJ – curso Superior – R$ 5.041 mensais

Analista do Procon do RJ – curso Superior – R$ 5.460 mensais

Analista Administrativo do Tribunal Regional Federal (opa! Federal já é mais interessante) – curso Superior – R$ 7.181 mensais

Mas por que se contentar com pouco? Por que ter que se preocupar em estudar, fazer um curso superior, “perder” vários anos de vida, quando você pode se candidatar ao cargo abaixo?

Técnico do Senado Federal – nível Ensino Médio – R$ 13.833 mensais

Não, eu não escrevi errado e você não leu errado. Galhofa, falta de vergonha e safadeza não começam a descrever e sim, você é que paga a conta. Quanto ganham pessoas com o mesmo cargo e escolaridade no TRF, que também é governo federal? R$ 4.623 mensais, que já é muito, se comparado com todos os outros, como os técnicos do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que ganham R$ 3.311 por mês. O cargo no Senado paga só R$ 10.500 a mais, sem contar os 13os, 14os, férias, etc…

É possível? (a resposta é “sim”, não só é possível como o concurso acontece em breve…)

* * * *

Na semana de Natal e na de Ano Novo, tive a oportunidade de ver um Rio de Janeiro, pelo menos Ipanema/Leblon, bem mais organizado e onde as leis eram bem mais obedecidas. Um certo dia estava sentado no Talho Capixaba, no Leblon, onde os carros costumam parar em fila dupla na rua – “vou só pegar algo rapidinho” ou “só um segundinho” – atrapalhando o transito e, para minha grande surpresa, dois guardas municipais não só não estavam deixando ninguém parar na rua, como estavam fazendo valer a placa de “carga e descarga” na frente do Talho e não deixaram ninguém parar ali também.

Mais de uma pessoa foi reclamar, algumas efusivamente, com os guardas, mas não teve conversa, quem parava era multado. Alguns cidadãos cariocas, como sempre, reclamavam de terem que procurar vagas ou ter sua rotina minimamente atrapalhada por um detalhe como esse, obedecer as leis. Fiquei impressionado e fui congratular os guardas que, desconfiados, se recusaram a me dar suas matriculas para que pudesse fazer um elogio, mas contaram o porquê do “choque de ordem”: “no briefing hoje cedo o chefe mandou ter tolerância zero, é para fazer valer a lei, sem exceções.”

Fica aqui uma dúvida e uma sugestão para a Prefeitura: por que não fazer isso todos os dias? Se a capacidade existe, por que não fazer as leis valerem todos os dias e não só entre o Natal e Ano Novo? Era incrível a surpresa e vontade dos guardas com essa informação de que, naquele dia, as leis eram para valer!

* * * *

Hoje está nos jornais cariocas a informação do CREA-RJ de que, um ano depois de mais de 1.000 pessoas morrerem por conta das enxurradas na serra fluminense no ano passado, quase nenhuma das obras de contenção foram feitas. Os técnicos do CREA-RJ aconselharam – sério – a população a rezar, porque no curto prazo não há nada a fazer. É importante lembrar que em menos de um ano os três prefeitos das áreas afetadas foram afastados por corrupção (as prefeituras receberam verbas estaduais e federais que ao invés de serem utilizadas, sumiram no ralo da desonestidade).

É o custo Brasil. A população parece incapaz de fazer a ligação entre o mundo político e as tragédias e mortes. Os desmandos no ministério da integração nacional, responsável pelo auxilio as chuvas no Brasil, estão na mídia hoje, mas daqui a dois meses já devem ter ficado para trás. Já é o segundo ministro consecutivo que destina a maior parte das verbas para seu Estado de origem e “esquece” do resto do Brasil.

Segundo a Presidente da República isso será corrigido em breve, pois o ministério será supervisionado por um adulto responsável. A Casa Civil vai ajudar a coordenar as ações da pasta. Ou seja, ao invés de resolver o problema e colocar alguém competente na função, o que irritaria o atual partido que é dono dessa fatia do governo, a Presidente vai tentar uma gambiarra. Fica aqui a idéia: por que não criar um ministério para supervisionar os ministérios? Do jeito que o povo vai, aceitaria isso sem problema, afinal, somos a 6a economia do mundo, maiores e melhores que a Inglaterra, então para que se preocupar com esses detalhes? Isso é, a não ser que sua casa esteja perto de um rio em vários estados no Brasil e a água estiver chegando perto…





O jeito brasileiro de privatizar?

21 12 2011

Na semana que passou a CONCER – companhia de concessões que administra o trecho da BR-040 entre o Rio e Juiz Fora – conseguiu a licença ambiental do IBAMA para iniciar as obra de duplicação da estrada, orçadas em 540 milhões de Reais, sendo 80% financiado pelo BNDES.

Dado o volume de investimentos, a CONCER pleiteia junto ao governo a extensão da concessão até 2041, um aumento de 20 anos na concessão original, leiloada em 1996. Sem a extensão a empresa afirma que não fará a totalidade das obras. Essas obras estão saindo do papel por conta, principalmente, da Copa e das Olimpíadas, então nada mais normal para a empresa fazer o pleito, não?

Não. A verdade é que essas obras estavam previstas no edital de privatização pelo qual a CONCER ganhou o direito de explorar a estrada há mais de 15 anos atras, só que sem Copa, nem Olimpíadas, as obras ficaram no esquecimento e o governo parecia “não lembrar” de cobrar.

Nas palavras do Presidente da CONCER, ditas ao Jornal O Globo: “na realidade, quando a rodovia foi oferecida em concessão à iniciativa privada, esses investimentos já eram previstos como uma atribuição da concessionária. Mas os custos, estimados sem projeto, estavam bem abaixo do volume de investimentos necessários. Pelos cálculos que fizemos, correspondem somente à construção do túnel. O resto da obra dependerá da ampliação do prazo de concessão.”

Como na matéria do Globo essa declaração passa impune, só posso acreditar que ela está errada ou quem escreveu a matéria não entendeu o que estava sendo dito. A CONCER participou de um leilão de privatização, já sabendo que ia ignorar algumas das regras da concessão e agora faz uma chantagem à ANTT? É o modo brasileiro de privatizar e licitar. Na privatização é assim e nas licitações é só um pouco diferente: o preço da obra é X, mas quando ela vai ser feita, depois de ganho o contrato pelo custo teoricamente menor, o gasto vira múltiplos de X por meio de aditivos e outros meios legais, como se fossem custos imprevisíveis. Esse instrumento é valido e foi criado porque algumas obras enfrentam custos imprevisíveis sim, mas seu uso real vai muito além disso e serve para encarecer muitas obras, na mesma medida em que enriquece muita gente.

Como sempre, quem ficará com a conta será a viúva. Pelo menos a CONCER afirma – por enquanto – que não aumentará o pedágio e sendo assim, quem irá reclamar de alguma coisa? Vamos nós rumo a 2014 e uma viagem mais rápida para a serra e os chatos que se preocupam com meros detalhes como 20 anos a mais de concessões sem licitação e obras de 500 milhões de Reais que parem de perturbar o caminho do progresso. Como diria Fernando Pimentel, “as explicações já estão dadas”…





O leitinho das crianças

14 12 2011

Que saudade!

Depois de seis meses fora do Brasil, nada como voltar para casa e ver que… tudo continua igual! Quer dizer, estou sentindo falta do Sarney na primeira pagina dos jornais ou nos escândalos mais recentes. Bom, não da para estar em todas, né, por mais que se tente.

Não sei o que é mais incrível:

1 – em menos de um ano de governo o Pimentel ser o oitavo ministro sob risco de demissão, sendo sete deles por denuncias de corrupção e cada um por uma diferente, o que é ainda mais incrível;

2 – a Presidente da Republica vir a público dizer que o congresso e a nação não têm nada a ver com as negociatas, quer dizer, negociações do ministro, antes dele ser ministro. O fato de ser político de carreira e coordenador da campanha da Presidente Dilma certamente não influencia nada, trata-se de um cidadão comum;

3 – o próprio ministro, segundo a ultima edição da revista Veja, se justificar com a Presidente dizendo que, diferente do Palocci – o incrível ex-ministro que conseguiu ser demitido duas vezes por duas denúncias de corrupção diferentes e continua livre – que os ganhos dele foram pequenos e usados para pagar suas despesas pessoais. Sério? Para comprar carro não pode, mas se for para o leitinho das crianças não tem problema? Qual o valor que se torna errado, então?

4 – o ministro ter divulgado 4 dos seus “clientes”. Um dele disse que a empresa (sua própria empresa) não tinha nem condições de pagar o suposto valor e nem uso para a consultoria. Depois de alguns dias, os sócios da empresa pernambucana aparentemente “lembraram” que tinham contratado o ministro sim e que ele tinha elaborado um plano de negócios para a empresa. Curiosamente, a empresa que nem tinha condições financeiras de pagar a consultoria, não tem uma única cópia do plano de negócios para mostrar. O mesmo acontece nas outras 3, nenhuma tem nenhum – atenção, NENHUM – documento produzido pela consultoria. O contrato com a FIEMG, por exemplo, era de um milhão de Reais e a explicação para não ter nenhuma página de papel comprovando o serviço, segundo o ex-presidente da FIEMG, é porque era só para Pimentel dar uma palestras e conversar com técnicos da instituição. A mesma instituição que, quando Pimentel era prefeito de BH, firmou um contrato com a prefeitura da cidade. Segundo o TCU, sempre ele, inconveniente, o contrato lesaria o erário publico só em 300 milhões de Reais.

E onde está Fernando Pimentel? Na cadeira de ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, de onde aparentemente não esta planejando sair. Sorte a nossa que o ministério é um belo cabide de empregos, contando com 38 ministros. Sendo assim, os 7 afastados por motivos nada republicanos em menos de um ano de governo representam “só” menos de 20% dos assessores diretos da Presidente da Republica.

Ê saudade!

E para fechar o ciclo, a revista Veja vem com uma reportagem de capa com uma denuncia sobre um suposto esquema para produção de uma lista falsa de um fictício mensalão da oposição, na tentativa de envolver todo mundo a sujeira. Notem bem: o esquema não era falsificar algo para inocentar os culpados e sim tentar culpar todo mundo. É a lógica perversa pela qual o Brasil têm operado de que o importante não é ser inocente, mas sim todo mundo parecer culpado, porque aí não da em nada. Incrível onde chegamos.





Satchita! (or Greatness)

12 10 2011

Dear Friends,

After another temporary absence, Theoricus Prospicio is back. It will work on a slower pace for the next 6 months, but I’ll try to put more articles and links up.

To mark the relaunch, here is a special treat!

Whenever you feel a bit blue, when the day is cloudy and the future a bit grey, click on the link below (remember to turn up the volume on your computer) and let the Brazilian medicine in… yeah, I know, it’s more a South American/Caribbean medicine with a bit of Indian on the side, but my beautiful Brazil and specially my native RIO DE JANEIRO, Cidade Maravilhosa, feature prominently on the video!

Or… if you just want to expand on your happiness, click on the link below and let the Rio, Brazil and Latin – ok, ok, and Indian – beat take you on a special journey… Satchita, or Greatness is the name of the song!

A cloudy day never looked as sunny as it does today…. A great week to all of you.

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Satchita – Playing for Change

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Prezados Amigos,

Theoricus Prospicio está de volta. Os próximos 6 meses serão mais lentos em termos de posts, mas tentarei manter um ritmo mínimo. E como não poderia deixar de ser, para marcar o “relançamento”, uma música que fará os tristes, felizes e os felizes, exultantes!

Som na caixa, volumes lá em cima! Em seguida, clique no link abaixo e deixe a batida carioca, brasileira, sul americana, caribenha e indiana te levar.

Um dia nublado nunca foi tão ensolarado como o de hoje!

Uma ótima semana para todos,

F.





Timing é tudo na vida!

15 03 2011

Timing na vida é tudo.

Sim, a situação no Japão é muito triste e é desesperador acompanhar cada nuvem de fumaça e bomba de água que falha nos reatores nucleares em perigo de derreterem, além do aumento no número de vítimas dessa tragédia. Quanto a isso não há dúvida. Mas para os mais de 6 milhões de Líbios e centenas de milhões de Árabes, Persas e Africanos, esse desastre no Japão não poderia ter vindo em pior hora.

É triste dizer, mas o mundo só costuma ter interesse e espaço para uma grande crise por vez. Nessa nossa época onde o déficit de atenção reina supremo, parece não ser possível focar em dois problemas ao mesmo tempo. Quem dirá 5?

Um dos efeitos mais tristes da ofensiva aérea e terrestre das tropas leais ao Coronel Kadhafi na Líbia é, efetivamente, encerrar a chamada “onda democrática” que estava andando pelo Oriente Médio e Norte da África. O ditador Líbio acabou de mostrar ao mundo que a forma de lidar com os protestos dos cidadãos por democracia e liberdade é o bom e velho bombardeio aéreo, seguido de artilharia e tropas terrestres. A grosseria funciona. Os rebeldes estão perdendo as poucas cidades que conquistaram e o dia da “batalha final” parece estar chegando. Também, o que fazer contra helicópteros de ataque, aviões e blindados?

Ontem a Árabia Saudita decidiu enviar tropas ao Bahrein para “ajudar” a conter o movimento democrático por lá. Pensem no que isso significa: um país pedindo ao seu vizinho que mande seu Exército entrar no país do outro para “controlar” a população. Afinal, se a “minoria” xiita de 70% da população do Bahrein tiver sucesso, o que a população xiita da Árabia Saudita, um país sunita extremamente ortodoxo, pensará em fazer? Melhor reprimir logo o povo do vizinho, antes de ter que fazer o mesmo dentro de casa. Como o jornalista Nick Kristoff do New York Times disse muito bem: “a pior coisa do mundo é ser xiita de Bahrein ou da Árabia Saudita. Você é odiado nesses países por ser xiita, no Irã por ser Árabe e no resto do mundo pelas duas coisas”.

O que Kadhafi mostrou ao mundo é que os ditadores da Tunísia, Egito, entre outros, erraram na condução de seus países. Mubarak permitiu que o exército egípcio tivesse identidade própria, que seus oficiais fossem uma elite dentro do país e que sua lealdade fosse primeiro à própria instituição, não a ele próprio. Kadhafi não cometeu esse erro. Na Líbia a equação é simples: as tropas que tem o melhor treinamento, o melhor equipamento e o melhor pagamento, são as tropas mais leais ao líder supremo. Tropas que respondem a ele e não têm muito problema em bombardear a própria população.

O pessoal da Guarda Revolucionária no Irã e a família Real da Arábia Saudita, certamente, estão olhando com atenção o desenrolar da situação na Líbia. O endurecimento da Árabia Saudita em relação aos acontecimentos no Bahrein já pode ser uma decisão baseada na experiência Líbia. Outro que aparenta saber essa lição é nosso vizinho Hugo Chávez, que tem sua própria versão da “Guarda Revolucionária”. Ou alguém aí acredita que se ele perder as eleições de 2012, ele sairá do governo pela porta da frente, sorrindo?

E aos cidadãos líbios lutando por seu país e suas vidas só restou suplicar à comunidade internacional por ajuda. Mas o ambiente mundial atual não é exatamente pró-intervenções externas, principalmente em países Árabes! A zona de exclusão aérea, se for estabelecida e isso é um grande SE, não vai servir de muita coisa. E não adianta nem sonhar com tropas no solo Líbio antes de Kadhafi matar muito mais de seus cidadãos. O mundo está mandando um recado claro: vocês ainda não estão morrendo em um número que se torne impossível ignorar e justifique uma intervenção.

Além disso, é importante chamar o animal pelo nome: a escolha que está diante da comunidade internacional é intervir militarmente na Líbia, com bombardeios e tropas, ou não. A zona de exclusão aérea per se, só serviria para livrar a cara do primeiro-ministro inglês e do presidente francês, ambos gritando por intervenção, mas sem dar um passo concreto nessa direção. Ou seja, o que eles querem é que os EUA façam uma intervenção, aí fica fácil ser moralmente responsável e fazer discursos inflamados.

E o que dizer da Costa do Marfim, onde a violência entre os apoiadores do presidente eleito Ouattara e as tropas de Laurent Gbagbo, o presidente que perdeu as eleições de 28 de Novembro de 2010 e se recusa a sair, piorou? Fazem mais de 4 meses que as Nações Unidas, a União Africana, os Estados Unidos e a União Européia atestaram que o presidente Gbagbo perdeu as eleições e que Alassane Ouattara ganhou. E mesmo assim, em um país que já tem tropas da ONU, fazem 4 meses que a situação não muda, a não ser os discursos e os combates entre os defensores dos dois lados, que aumentaram consideravelmente na última semana. Mas também não é notícia que tem recebido tanto destaque.

É, infelizmente, e espero estar errado, mas parece que a onda democrática chegou ao fim. E ainda resta saber o que as populações do Egito e a Tunísia farão com sua nova liberdade. Agora é torcer pelos defensores da democracia na Líbia, Bahrein, Yemen e Costa do Marfim. É torcer para um milagre no solo ou nos salões da ONU.

E, claro, torcer pelos Japoneses e seus reatores. Sem dúvida, uma semana complicada para nosso mundo essa.

PS: Uma demonstração dos efeitos inusitados da história… Em 2003, Bush filho invadiu um país que não tinha nada a ver com terroristas, não tinha armas de destruição em massa e nunca tinha patrocinado atos de terrorismo direcionados aos EUA. O resto da história todos conhecem: centenas de bilhões em gastos, 4.000 e tantos americanos mortos e os Estados Unidos menos seguros do que antes de invadir o Iraque.

Agora, graças a essa experiência, os EUA vão perder a chance de invadir um país cujo líder foi o mentor e patrocinador direto de vários atos de terrorismo contra americanos e cujo programa de armas químicas, biológicas e nucleares deixou os inspetores surpresos em 2003. No futuro, com Kadhafi isolado de novo e sem chance de redenção dessa vez, o que ele fará (e patrocinará) na Líbia?





Pré lançamento do meu livro: “Purus – Life in the Amazon’s poorest river”

1 03 2011

Prezados leitores,

Enquanto o livro sobre a Amazônia não é lançado, aqui vai uma prévia do que será.

Essa é a versão em inglês e está disponível para compra direto pelo site, nos links abaixo. Em breve, também estará disponível na Amazon.com e, possivelmente, na loja eletrônica da Barnes & Noble.

A versão em port., aqui no Brasil, ainda vai demorar um pouco.

Abraços,

Life in the Amazon’…
By Frederico J Junqu…





Revolução!

22 02 2011

(ou o título dado pelo pessoal do Jornal O Globo: Altos orçamentos e baixa eficiência dos serviços de inteligência)

$ 80 Bilhões de Dólares

$ 3.24 Bilhões de Dólares

$ 350 milhões de Reais

As 3 cifras acima são, respectivamente, os orçamentos dos serviços de inteligência dos Estados Unidos, da Inglaterra e do Brasil. Se juntar o que o resto do mundo gasta, o total aumenta consideravelmente. Mesmo com todo esse dinheiro, analistas, relatórios, papers e, sem dúvida nenhuma, infindáveis reuniões, nenhum serviço de inteligência conseguiu prever o evento mais significativo no mundo nos últimos anos (talvez na última década? Mais alguns meses e o 11 de Setembro saíria do corte): as revoluções em sequência no Norte da África e Oriente Médio. Para se ter uma idéia de quão perdidos eles estão, basta saber que, de acordo com análises destes mesmos serviços, até a Al Qaeda foi pega no contrapé com esses movimentos.

Dois ditadores já se foram (Tunísia e Egito), algumas famílias Reais e ditadores estão na corda bamba (Yemen e Bahrein), um ditador está partindo para a guerra civil (o velho Coronel Kadafi), outros estão correndo para tentar segurar o povo antes dos movimentos tomarem corpo (Jordânia, Irã, China, Arábia Saudita, entre outros) e, por fim, um punhado deve estar rezando toda noite para que as notícias do além mar não cheguem por aqui, ou desçam a África – os irmãos Castro e seu parceiro Hugo Chavez, assim como os ditadores da Guiné Equatorial e Zimbabwe.

Os governos do mundo ocidental foram pegos de surpresa e isso é, ao mesmo tempo, bom e ruim. Ruim porque mostra que com tudo que se gasta com inteligência, às vezes o que está sendo sentido por todo um povo é ignorado ou não compreendido e isso mostra a grande limitação desses dinossauros burocráticos ao redor do mundo. Também é ruim porque, mesmo com todos os defeitos, grande parte dos países do mundo ocidental representam valores importantes como a democracia e o respeito às leis (pelo menos na teoria) e são exemplos a serem seguidos pelos países agora em estado de revolução. Por outro lado, a ignorância dos governos ocidentais também ajudou evitando que eles pudessem se envolver e, como acontece na maioria absoluta dos casos, complicar as coisas ao invés de ajudar. E é importante lembrar que muitos desses ditadores estão ou estavam no poder até hoje, por conta da ajuda, explícita ou não, das maiores economias do mundo. E antes que os brasileiros apontem o dedo para os americanos ou franceses, lembrem-se que nosso governo apoia o Irã, a Venezuela, Cuba e a Guiné Equatorial, só para ficar em quatro exemplos do passado recente.

Apesar da luta pela liberdade, é improvável que em todos esses países surjam democracias como as que conhecemos. Há o perigo de novos ditadores ou autocratas surgirem ou que eleições tragam ao poder, grupos ou pessoas que o ocidente não gosta, como no caso do Hamas, na Palestina. Teremos que esperar e acompanhar os acontecimentos, pois como o passado recente mostrou, nenhum comentarista, analista, escritor ou político pode dizer o que acontecerá daqui para frente.

A verdade é que os últimos anos de prosperidade mundial não chegaram à população desses países. A prosperidade tem, ao contrário, o mau costume de parar nos políticos e na classe dominante de todos os países citados acima. Para a infelicidade da população deste países, eles foram abençoados (ou amaldiçoados?) com recursos naturais que o resto do mundo deseja. Graças a nossos hábitos de consumo, as empresas exploradoras de todos esses recursos não costumam se preocupar com detalhes como quem fica com o dinheiro pago aos países onde operam. Só que não foi só a riqueza dos ditadores e do mundo que aumentou muito nas últimas três décadas. E aí que nasceu, literalmente, o problema que hoje está batendo (ou derrubando?) às portas dos palácios de governo de tantos países.

No Egito, Jordânia, Marrocos, Oman, Arábia Saudita e Yêmen, mais de 50% da população tem menos de 25 anos. No Yêmen esse número chega ao 75% e a taxa de cidadãos abaixo da linha da probreza é de 45%. Já no Egito, 66% da população tem menos de 30, enquanto 50% dos 80 milhoes de Egípcios sobrevivem com menos de 2 dólares por dia. Na Arábia Saudita, 25% dos jovens entre 15 e 24 anos não têm emprego. No Bahrein, Kuwait, Líbano, Tunísia e Emirados Árabes Unidos, entre 35 a 47 da população tem menos de 25 anos. Com a internet e a globalização, ficou impossível esconder dos próprios cidadãos o quão atrasado eles são em relação ao resto do mundo. As populações nestes países cansaram, aparentemente, de esperar mudanças e de aceitar o discurso oficial.

Vamos ver onde isso vai dar. E que as ondas democráticas atravessem o mar!

P.S: sobre os 350 milhões do orçamento da ABIN (de 2009) é importante salientar que, como não poderia deixar de ser, 310 milhões são referentes a pagamento de pessoal, incluindo aí mais de 10 milhões em gastos nos cartões de crédito corporativos que, obviamente, são secretos. Uma questão de segurança nacional, sem dúvida.





A diferença da teoria para a prática

16 02 2011

O prédio atrás do meu está terminando uma reforma em sua fachada essa semana. Fiz questão de entrar no site da empresa responsável há alguns minutos atrás e dei de cara com o lema deles:
Desde 1969 trabalhando com muita Segurança, Eficiência e Rapidez

Pois esse é um ótimo exemplo para mostrar como no mundo real da administração (e de todas as áreas) a teoria pode ser bastante diferente da prática. Eis as fotos de uma parte da pintura que está sendo feita nesse EXATO momento. Está dando nervoso de ver o pintor andando de um lado pro outro e virando, abaixando e pintando em várias partes, sem ter NENHUM aparelho de segurança.

Bom, ele está só no quinto andar, então acho que não precisa, não é mesmo? E isso porque a empresa faz obras com “muita segurança”, imaginem se fosse só “com segurança”…

Fico com pena desses sujeitos que, no Brasil e muitos países por aí, são obrigados a se sujeitar a isso porque se reclamarem perdem o emprego e como a fiscalização governamental é quase inexistente, as empresas não correm muito risco. Se eu enviasse essas fotos a um jornal e elas fossem publicadas, sem dúvida ele ainda perderia o emprego e a empresa diria que o funcionário está agindo por conta própria.

Sim, pode até ser que um ou outro funcionário façam isso por conta própria, afinal, tem um monte de gente por aí que faz questão de andar de carro sem cinto de segurança e a filosofia é a mesma, a do: “eu me garanto e nada vai acontecer comigo”. Só que aí é tarefa da empresa de fiscalizar, treinar e controlar seus funcionários. Se chama responsabilidade.

Segurança Total

Segurança Total 2

 





Da Somália ao Alaska – competições de fotos!

16 02 2011

Hoje saíram dois resultados de competições de fotos internacionais. Embora possam parecer de níveis bem distintos, a qualidade de ambas não é muito diferente não (talvez os sujeitos das fotos é que diferenciem).

Uma é a World Press Photo Awards 2010. Em sua 54a ediçãoé um dos prêmios mais importantes na área do fotojornalismo. Segue aqui uma das escolhas e minha preferida.

De Omar Feisal, trabalhando para Reuters. Categoria "Daily Life"

As outras ganhadoras podem ser vistas no site do World Press Photo, mas aviso logo que não é para os que têm estômago fraco não.

Já o outro concurso foi o 2o National Geographic Expeditions Moments, onde os participantes das expedições turísticas da Nat Geo enviam suas fotos para concorrer. Assim como no WPP, a minha preferida não foi a grande ganhadora.

Foto por Eric Kruszewski

Seguem os links para os resultados dos respectivos concursos:

World Press Photo

National Geographic Expedition Moments








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