Caro leitor, seguindo no tema do “o que isso importa para a felicidade”, hoje a conversa é sobre a comunicação. Não importa se ela é entre pais e filhos, marido e mulher, amigos, colegas de trabalho ou chefe e subordinado. As falhas e os problemas nas comunicações ocorrem em todo tipo de conversa e em todos os lugares do mundo.
E porque isso é importante? Porque, de acordo com inúmeros estudos* uma das condições que mais afetam a felicidade das pessoas é a qualidade e quantidade de seus relacionamentos. E como os psicólogos Shane Frederick, do MIT e George Loewenstein, de Yale, demonstraram em seu estudo intitulado “Adaptação Hedônica”, embora o ser humano se adapte a muita coisa, ele não consegue se adaptar ao conflito interpessoal. Ou seja, aquele conflito crônico com seu parceiro/parceira, chefe ou colega de trabalho será uma de suas principais fontes de infelicidade. Mesmo quando você não estiver junto com aquela pessoa, este conflito continuará presente nos seus pensamentos, enquanto você repassa e reflete sobre a última discussão ou o último problema. E tudo isso pode partir da comunicação feita de maneira errada, pois ela pode levar a rompimentos, brigas, discussões em série e toda sorte de problemas interpessoais. Conflitos estes que, muitas vezes, poderiam ser evitados tomando algumas precauções simples.
Para começar a pensar sobre o assunto, vamos nos ater a apenas três pontos que são de extrema importância para a boa comunicação:
- Comunicação não é o que você quer dizer e sim o que a outra pessoa entende
- A importância da auto-análise e da análise da outra parte para a comunicação
- Poucos de nós ouvimos, de verdade, o outro lado
Esses três pontos colocam o dedo em alguns dos principais problemas de comunicação. Um caso clássico que é muito repetido e serve de bom exemplo é do pai que fala para a filha parar de fumar. O pai acha que está falando sobre a saúde da filha, sobre as conseqüências futuras daquele hábito, enquanto a filha escuta um argumento sobre a limitação da sua liberdade e das suas escolhas ou uma afronta a sua rebeldia, por exemplo. O resultado todos sabem qual é.
Por isso que, em qualquer comunicação é preciso ter muito cuidado não só em como se vai dizer algo, mas também em saber como a outra pessoa entende o que você está dizendo, quais os pontos de vista e interpretações que estão sendo utilizados para julgar sua mensagem. E, por mais que você ache que a outra pessoa está entendendo exatamente o que você está falando, a realidade pode ser bem diferente.
Essa situação seria muito mais fácil se usássemos uma figura conhecida da comunicação por rádio, o termo “peço cotejar”, que significa: repita tal qual entendeu, a mensagem enviada. Ou seja, me diga o que você entendeu do que eu acabei de dizer. Mas na vida real não dá para fazer isso, senão uma simples conversa demoraria horas.
Essa impossibilidade faz com que seja de suma importância ter essa característica sempre em mente, ao realizar qualquer comunicação. Alem de ter muito cuidado na análise do que você acredita ter sido o entendimento do outro lado. Isto porque as conversas sofrem influência de diversos fatores importantes que podem modificar ainda mais o entendimento e a interpretação das mensagens, entre eles o estado de espírito e acontecimentos recentes da vida de ambos os lados:
- Se você está estressado, sua chance de interpretar de maneira negativa algo que seu chefe lhe fala é aumentada. Pode ser que um comentário que, em um dia normal, não fosse nem lhe incomodar, hoje incomode muito. Mas não porque seu chefe lhe quer mal, ou não gosta de você (o mesmo vale para qualquer conversa) e sim porque seu filtro hoje está modificado.
- O mesmo pode acontecer do outro lado, com estresses e problemas não relacionados a você que a outra pessoa possa estar tendo. Você acaba discutindo ou brigando, mas o motivo real não é aquela conversa e sim a briga que seu chefe teve com a mulher dele hoje cedo, ou a briga que seu marido teve com o chefe dele no trabalho e que resultou em uma discussão em casa, os exemplos são inúmeros e tenho certeza de que o leitor já pensou em vários ao ler estes parágrafos (e se não pensou, pode começar a prestar atenção).
Os fatores ambientais afetam de sobremaneira as conversas e as interações, portanto tente sempre fazer uma auto-análise de como você está, do seu filtro naquele dia, ou em um determinado momento, pois ele não é estático. Também é importante tentar pensar sobre os fatores que possam estar influenciando o outro lado. E lembre-se que sua análise sobre o outro pode estar 100% incorreta, mas mesmo assim já servirá para preparar melhor suas respostas e interpretações.
E estes mesmos conselhos servem para as negociações também, pois embora elas sofram de outras interferências e particularidades, saiba que a maior parte das conversas que temos durante o dia são, no fundo, negociações. Elas só não levam esse nome, mas na vida real, queira ou não queira, todos nós negociamos o tempo inteiro.
Outro fator importante na comunicação é tentar não exagerar em detalhes que não acrescentam à mensagem que se quer passar. Isso pode ser explicado com um exemplo muito fácil, este artigo. Poderia passar 3 dias revisando o português, as virgulas e pontuações para deixa-lo impecável. Entretanto, meu objetivo com este artigo não é entrar para a Academia Brasileira de Letras. É muito comum as pessoas esquecerem dos seus objetivos finais no meio de conversas ou comunicações. No meu caso, o importante é revisar para evitar os erros grosseiros, para deixar o texto fácil de ser lido e para tentar passar as mensagens principais. O resto é desnecessário para essa comunicação. Tentem sempre se lembrar dos seus objetivos, pois perde-los de vista no meio de conversas e, principalmente, discussões é muito mais comum do que se imagina, principalmente nas conversas que envolvem uma carga emocional maior, como nos relacionamentos, tanto os familiares, como os amorosos.
É fácil? Não. Tentar fazer essa análise de sentimento e de objetivos não é fácil não, ainda mais no dia a dia. Mas tentem começar como um exercício, nem que seja uma vez por dia, ou só em conversas mais sensíveis e vejam por si próprios como faz diferença. Vale a pena tentar, simplesmente pelo fato dos benefícios para você e para os que o cercam serem enormes. Comece no seu ritmo, na quantidade e forma que achar melhor, mas o importante é começar.
O 3o ponto que temos para conversar, o fato da maioria das pessoas não ouvirem, de verdade, as outras, ficará para o próximo texto, dado a extensão de nossa conversa de hoje.
Boa sorte!
*os interessados em saber diversos estudos a respeito podem entrar em contato que passo as referências.
Este texto é apenas uma referência, já que o assunto tem material suficientes para preencher um ou mais livros, mas espero que já sirva como um primeiro abrir de olhos para os inúmeros fatores envolvidos na comunicação/negociação.