O passar dos dias não torna mais natural a visão de um navio como o Costa Concórdia aleijado e tombado na linda costa de Giglio. A essa altura o Capitão Schettino já foi crucificado na corte da opinião pública internacional, para a felicidade da Costa e da Carnival Cruise Corporation (que é a dona da Costa), ambas depositando toda a responsabilidade do acidente sobre o Capitão.
Pelo que foi divulgado até agora ele parece, sim, culpado não só pelo acidente, mas como também pela desorganização no abandono do navio. Porém é preciso segurar as massas antes do linchamento, porque por outro lado a manobra realizada após o acidente, trazendo o navio o mais próximo possível da costa possibilitou que o número de vitimas fosse infinitamente menor do que se ele tivesse afundado em águas mais profundas e porque é preciso aguardar as investigações para tirar conclusões.
O que não tira a responsabilidade do Capitão pela manobra inicial e, apesar da explicação de por quê ele saiu do navio (foi jogado para fora) ser possível, a demora e a recusa dele de voltar para bordo o incriminam de qualquer maneira, catapultado para fora ou não. A demora em pedir socorro para as autoridades italianas também conta contra o caso do Capitão.
Mas o que a Costa não quer ninguém falando é na responsabilidade da empresa no assunto. No campo da aviação, por exemplo, uma profusão de controles e comandos permite que diversas instâncias controlem e fiscalizem o desenvolvimento de um vôo, indo da tripulação, à companhia, controle de vôo e órgãos de fiscalização. Um comandante de vôo que resolva fazer um vôo a baixa altura por Copacabana para que a mãe dele possa dar tchau pode contar com uma tempestade de problemas quando ele pousar. Já um comandante de navio não.
Como a imprensa e a seguradora Lloyd’s têm mostrado nos últimos dias – e a seguradora tem motivos financeiros fortes para isso – não foi a primeira vez que o Costa Concordia desviou 9 quilômetros da rota para fazer uma passagem próxima de Giglio. Pelo menos uma outra ocasião em 2011 já foi comprovada, quando o Concordia passou ainda mais perto de Giglio do que dessa vez. Dada a repetição da manobra no último fim de semana é de se esperar que o Capitão não tenha sido advertido anteriormente.
A empresa tem como saber que seu navio desviou grosseiramente da rota e, pelo visto, os italianos preferiram não tomar nenhuma medida, certamente na idéia de que o Capitão é o Capitão e sabe o que esta fazendo com “seu” navio. Mas o navio é da Costa e o Capitão um funcionário que, novamente à principio, tinha o costume de desrespeitar as normas e planos. Não foi o primeiro acidente com fatalidades da Costa nos últimos cinco anos e, certamente, isso aumenta a suspeita sobre as políticas da companhia. É importante ressaltar que, obviamente, o Capitão tem a liberdade de mudar a rota por condições climáticas, do mar ou por motivos significativos. O que é diferente de fazer um desvio de 9 quilômetros e passar a menos de 250 metros de uma costa com pedras por motivos espúrios.
Como nós brasileiros temos muito em comum com os italianos é fácil entender essa cultura. Seguir estritamente as normas e regras quando se tem o poder total e autoridade sobre um navio daquele tamanho é chato e qual o problema de desviar “um pouco” da rota para fazer “um bonito” com seu maitrê e, segundo consta, um Capitão aposentado que também estava a bordo? A mesma manobra já havia sido feita sem problemas, afinal de contas. O Capitão, como mestre da embarcação, é sem duvida o responsável pelo que acontecer com o navio, mas acredito que a cultura da companhia e, portanto, a companhia em si pode ser tão culpada como o Capitão, no mínimo por negligência. É nesses momentos que aparecem os custos de não seguir as normas e desrespeitar os procedimentos de segurança na condução das operações.